Por quê é preciso discutir a relação sexual?

Graziela Bolelli Rebouças

Recentemente participei de uma cena um tanto bizarra, mas muito presente nos dias atuais: estava eu em uma loja, quando encontro uma pessoa conhecida e se estabelece uma conversa bem familiar à nós, mulheres, em que começamos a falar sobre nossas ocupações, filhos, maridos e em pouco tempo conseguimos abrir milhares de parênteses que deixa qualquer homem atordoado…e como isso é gostoso…
Mas foi então nesse contexto, que eu pergunto à minha conhecida, como vai seu filho, um rapaz de 16 anos, que eu me lembrava de um modo carinhoso, de como este rapaz, quando o conheci ainda criança, era bonito, inteligente e determinado nos esportes. Ela me responde que ele está bem, embora tivesse abandonado os estudos pois havia se tornado um grande namorador à ponto de só pensar em garotas e não conseguir mais estudar.
Confesso que fiquei bem surpresa com a notícia, no meu imaginário, aquele rapaz, estaria tendo muito sucesso nos estudos e nos esportes. Então, enquanto eu lidava com a notícia, tentando simbolizá-la, chega uma outra conhecida, que havia escutado a conversa e acrescenta que ainda bem que o rapaz estava namorando garotas, pois poderia ser pior, no caso, se ele se interessasse por homens.
E por fim, me atualiza, dizendo que hoje em dia é assim: “ a pergunta tão corriqueira sobre o sexo do bebê , se a mãe está esperando um menino ou uma menina, agora só pode ser respondida do seguinte modo: que não sabem, que quando o filho ou a filha estiverem mais velhos é que eles, os pais poderão responder.”
Como a conversa era ocasional, nos despedimos naquele momento, peguei meu embrulho e fui embora me perguntando se o espanto e mal estar que haviam se instalado em mim seriam frutos de um preconceito, de uma norma que todos devem estudar e fazer faculdade. Mas identifiquei que meu mal estar estava sobretudo no fato de uma conversa tão séria ter se desenrolado de modo tão descompromissado. Pensava se uma das mulheres havia parado para refletir o que dizia sobre a escolha sexual dos filhos ou se apenas repetia comentários da moda, fazendo um chiste.
Deixo claro que não se trata de uma defesa da heterossexualidade e sim, de poder refletir sobre as mudanças no laço social, muito claras na fala de uma das mulheres da cena, que com o advérbio de tempo “ agora”, a sinaliza.
Somente o percurso analítico permite que um sujeito se aproprie de sua linguagem, que se deixe atravessar pelo o que fala, que tome um engano, um lapso como algo que foi revelado do seu inconsciente e que o sujeito não sabia que possuía um saber sobre o ocorrido.
A psicanálise é fundada no impossível da relação sexual e no inconsciente estruturado como uma linguagem. Vale lembrar que linguagem não é simplesmente comunicação – é necessário ser um sujeito para fazer uso da linguagem, ou seja, assujeitar-se ao significante.
Sendo assim, não basta aprender a articular palavras, ter um bom vocabulário, escrever carta comercial, responder whatsapp… é preciso ser capaz de desejar. Se para haver desejo é preciso haver falta, como podemos esperar sujeitos desejosos nos dias de hoje, em que o discurso da mídia está na contramão desse processo, não cessando de nos apresentar objetos de consumo e todos acrescidos da oferta de um retorno imediato à nossa satisfação?
Não poder esperar, não poder estar em falta é um sinal de que as questões referentes à castração não caminham bem. Lacan discute essa problemática no impossível da relação sexual, no inconsciente estruturado como uma linguagem. Somos obrigados a falar porque é impossível criar uma unidade com o outro, assim como é impossível viver para sempre ou pertencer simultaneamente aos dois sexos.
Na clínica psicanalítica, encontramos sujeitos que sabem desses impossíveis, mas o tratam de uma forma racionalizada, muito evidente na maneira como usamos da palavra. É comum ouvirmos a frase: “ eu sei que não posso fazer tudo, mas…” ou então, “ eu sei que meu companheiro é diferente de mim, mas…”
Penso também no aumento das leis em nossa sociedade, normatizando condutas e visando um ideal de felicidade como é o caso da proibição do uso de armas de brinquedo por crianças, da proibição dos pais darem umas palmadas no filhos entre outras. Estas leis proliferam por falta de uma lei simbólica que leve o sujeito a reconhecer o impossível e a agir de acordo com seu desejo, pagando o preço pelo mesmo.
Existem as questões privadas e íntimas que instância alguma pode dizer o que fazer, como por exemplo, a escolha sexual.
A clínica psicanalítica oferece uma escuta às demandas de um sujeito até que se escute seu desejo, sua verdade não –toda, já que impossível de ser toda dita, ao passo que essas leis parecem acreditar que não há impossível a ser superado e a ciência corrobora com este cenário nos dando respostas à todos os males.
Mas numa sociedade com tantas leis e num mundo com tantas promessas, por que os pais não se implicam nos sintomas apresentados por seus filhos e se sentem aliviados quando um filho escolhe algo que agrade seus narcisismos?
Sabemos que não basta que uma mãe ofereça ao filho a linguagem, isto é, o significante, o elemento simbólico, pois como o bebê ainda não tem o seu sistema imaginário formado, ele não é capaz de utilizar este simbólico ao seu próprio modo. Então é preciso que entre os 6 e os 18 meses, a criança passe pelo estágio do espelho, quando irá reconhecer como separada do corpo do Outro, deixando um estágio anterior em que vivenciava seu corpo como despedaçado.
Este estágio do espelho, que é o da formação do imaginário, tem no momento em que a mãe diz à criança: “ olha você ali!”, uma confirmação simbólica dada pelo Outro, que aponta pela linguagem a imagem do corpo próprio.
Porém, antes de se deparar com um espelho de parede, o primeiro lugar em que a criança se reflete e se reconhece é o olhar do Outro; portanto, fora de si mesma.
O espelho é o lugar decisivo na formação do eu, mas o eu, em relação ao sujeito do inconsciente é um outro: por ter sido gerado a partir da imagem do Outro, essa imagem especular que irá mostrá-lo ali, onde ele não está.
A criança forma o seu sistema imaginário através do espelho e entra num jogo imaginário com a mãe, percebendo quando ela está presente ou ausente. Esta falta da mãe é estruturante, ou melhor, a mãe falta como ausência e assim a criança percebe que a mãe não tem tudo, algo lhe falta – eis o que chamamos de falo imaginário e a criança se oferece como esse objeto para suprir essa falta. É então que a função paterna intervém como elemento real, introduzindo a lei que abre a possibilidade da criança buscar novos horizontes para além da mãe e se direcionar aos seus próprios interesses a partir do que lhe falta.
No que diz respeito às identificações e à escolha de objeto na determinação do próprio sexo e no do outro, superar a indiferenciação , assumir a divisão sexuada e suportar a diferença é um caminho árduo. Embora a biologia acredite poder determinar a sexualidade humana, esta lhe desafia e Lacan contribui ao abordar a diferença sexual não apenas pela anatomia dos corpos e sim, pelos discursos dos sujeitos; nos apresentando uma posição do masculino e uma posição do feminino.
A diferença entre tais posições está na relação com o falo e precisamos levar em conta de que não estamos mais no campo da sexualidade e adentramos no campo da sexuação, que se refere à subjetivação do falo, possibilitando dois modos de se lidar com a castração- ter ou não ter o falo e ter ou ser o falo.
Tê-lo ou não, aponta para uma simetria , já que ninguém realmente o tem, mas tê-lo ou sê-lo é outra história… a problemática da identidade sexual depende da relação que se tem com a atribuição fálica, mas será a elaboração psíquica que cada um fará em torno dessa questão que merece toda a importância. Essa elaboração parte de um real anatômico, real do corpo que impõe alguns limites à relação do falo com o mundo.
As questões que concernem aos nossos corpos são bem complexas e no modo como o sujeito de hoje se relaciona com a castração, aponta para a predominância do imaginário, supervalorização do corpo, exigências de gozo, consumo desproporcional à renda, drogadição, erotização precoce, uso indiscriminado de medicamentos, entre outras. Quanto menos simbolização, menos sintomas, mais atuações e uma indiferenciação sexual.
O laço social na economia do mercado habitua a conceber qualquer gozo como comprável, o gozo que a sociedade contemporânea concebe não é um gozo limitado por um interdito e sim, um gozo sem limite, de um objeto sempre disponível.
Tendemos a reduzir o desejo à procura de um gozo que não é o gozo fálico, possível de ser atingido e sim, um gozo que nos parasita e nos paralisa. O gozo fálico é o mais comum de ser encontrado por fazer parte da maioria das nossas atividades: trabalho, sexo, gozo do sintoma, do sofrimento.
Lacan vai definir o gozo sexual como fálico, abrangendo com essa definição tanto a sexualidade masculina como a feminina. A própria denominação “ fálico” já indica que ele pertença ao campo do simbólico, é um gozo articulado e comandado pelo significante fálico, faz parte da linguagem e pode ser dito.
Mas o fato de que o gozo fálico é um gozo do significante, traz a consequência de que o significante é também o que faz barreira ao gozo. Explico: o gozo fálico é um gozo limitado, sendo seus limites determinados pelo falo. A linguagem não nos aproxima dos objetos, como temos a ilusão e sim, nos afasta dele. Uma vez que quando falamos, um significante remete sempre à outro significante, o objeto fica de fora dessa cadeia, escapa à mesma. Então o gozo fálico será sempre um gozo do significante e não do objeto. O sujeito gozará portanto de um semblante, restando a sensação frequente de não conseguir abarcar o objeto que seria o “bom”, aquele que viria garantir o gozo total.
Como não existe gozo total, que permite gozar da totalidade do Outro sexo no ato sexual, caberá ao sujeito gozar do órgão.
A função do falo pode ser também abordada pelo o que Lacan chamou de bipolaridade sexual, ou seja, ser homem e ter o falo e ser mulher e não tê-lo. Mas é o significante que confere ao objeto fálico a função de ser o que falta à mãe e, sobretudo, de ser o que ela deseja. Eis o que leva uma criança, seja ela menino ou menina, a desejar ser o falo que viria preencher o desejo deste Outro faltante. O falo não é um objeto, não é o órgão que ele simboliza, não é uma fantasia e deve ser compreendido pelo efeito imaginário que ele produz.
Um pouco mais tarde, um sujeito poderá caminhar no seu percurso de crescimento e ser o falo para o Outro, não será mais o cerne de sua atenção. O sujeito passará a se atentar ao apresentar ao Outro o que ele pode ter de real que responda a este falo. As relações entre os sexos girarão em torno de ser e ter um falo e não em torno de ser homem ou de ser mulher.
Então, antes mesmo de falarmos em uma inadequação entre um homem e uma mulher, precisamos ter claro que a primeira inadequação ocorre entre a demanda materna e o objeto que a essa demanda poderia ser proposto. O primeiro objeto que todos nós propomos como adequado à demanda materna é sempre nosso corpo e essa experiência ficará no horizonte como a nossa perspectiva de gozo. Passamos a perseguir a ideia de gozo de poder ser o objeto adequado à demanda materna, de poder realizar nosso Eu Ideal.
As inúmeras ofertas de produtos nos dias atuais nos impõe um padrão comum de gozo : todos devemos ter os mesmos objetos para sermos felizes, completos, abolindo as diferenças, anulando a reflexão acerca das consequências da sua difusão na sociedade e o mesmo acontece com o sexo, que virou uma mercadoria a ser consumida. O aforismo “ a relação sexual não existe” está fundado na diferença e quando se trata do sexo fora da diferença, isto é, o sexo ao alcance de todos, como vídeos que ensinam as mulheres a se masturbarem, trazendo uma obrigatoriedade em relação ao gozo; cria um imperativo de gozo que se um sujeito não responde ao mesmo, está em dívida em relação à tal imperativo. O que é de domínio privado passa a ser de domínio público.
O objeto a, nesse caso, se apresenta como positivado, materializado. Ao invés de se tratar de um substituto do objeto mediado pelo significante, o objeto passa a ser algo que compramos. De acordo com Marcus do Rio Teixeira, o tipo de gozo encontrado com tal objeto não seria mais um gozo fálico e sim, um gozo de consumo.
Segundo este autor, passamos de uma situação na qual o objeto de consumo era um instrumento, um atributo fálico que permitia o acesso ao objeto que permitiria o gozo sexual, fálico, à uma situação na qual o objeto não é mais um meio, e sim o propiciador do gozo. Não se trata mais de um gozo do significante, mas um gozo do objeto.
Como consequência da perda da referência fálica, para Charles Melman tem-se a prevalência dos gozos auto-eróticos, que não apelam a um parceiro e sem o direcionamento do falo, as pulsões produzem gozos que se localizam no corpo, mas não tem como referência o sexual.
Se o falo falta, Lacan, propõe o conceito de objeto a, causa do desejo, que por sua vez, marca a entrada do significante no real – causa de sujeito. E é esta via que permite deslocar a questão do sexo do imaginário do corpo para a posição discursiva, por que esta sim, garante a diferença.
Nas letras de Lacan: “ O Outro sexo, a que nos remete a falta no campo do Outro, marca justamente aquilo que se transmite de uma geração a outra. Pois só se transmite o significante.”
Lacan insiste na importância do enlaçamento do real, simbólico e imaginário, três registros necessários, em sua articulação e não, sozinhos, para que algo do funcionamento conhecido como humano se dê. Assim, o sujeito, curvado sobre si mesmo, carente de seu sonho, de sua fantasia será aquele que gozará não do objeto, mas fazendo-se de objeto. O sujeito nessa posição não percebe o gozo do qual ele se faz objeto.
Concluo agora, o quanto que fiquei perturbada com a cena que me fiz ouvido na loja, me colocando angustiada por fazer parte do laço social em que também construo. Mas se a clínica analítica nos ensina o valor de uma perturbação e nos apresenta a angústia como um sinal para ficarmos atentos à presença maciça do Outro, que bom ter sobrado um resto desse episódio.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Dicionário de Psicanálise : Freud & Lacan, 2, 2ª edição. Salvador: Ágalma, 2004
Duque – Estrada, Dulce. O umbigo do sonho…e o nosso. Porto Alegre; CMC, 2011
Fleig ,Mario. O desejo perverso. Porto Alegre: CMC, 2008
Harari, Roberto. Por que não há relação sexual? Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2006
Teixeira, Marcus do Rio. Vestígios do gozo. 1ª edição. Salvador: Ágalma: Associação Científica Campo Psicanalítico, 2014

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