Desenho e o contorno de seu furo

 

Acredito que todos aqui conheçam o famoso exemplo  do jogo do carretel  dado por Freud ao observar certa vez, um de seus netos lançando um carretel para fora do berço e depois puxando-o de volta no momento em que lidava com a ausência de sua mãe. O pequeno garoto, ao repetir seus movimentos, emitia  vocalizações bem próximas à Fort e Da ,palavras que, em alemão significam algo como” foi-se e aqui ”.

Freud serviu-se dessa observação  para destacar que  a criança  obtura o efeito da desaparição de sua mãe podendo ser  agente do mesmo.  Mas talvez o mais importante esteja no fato de que, nessa brincadeira em que se colocou em ato a separação, vê-se a ação do significante, constituindo-se como resto, identificado ao carretel que se destaca do pequeno sujeito, indicando que  devemos olhar para o conjunto dessa atividade como simbolizando a repetição que só  pode ser definida na sua relação ao objeto.

Cada experiência na constituição de um sujeito é diferente da anterior, instaura-se uma distância  na qual virão alojar-se os objetos pulsionais e será pela repetição das experiências que a criança tenta anular essa distância. Mas se trata de um grande engano, pois quanto mais ela repete para tentar encontrar o idêntico, mais ela cava uma diferença, nenhuma experiência é igual a outra e nenhuma pode reencontrar a primeira experiência,  nomeada como  a Coisa, em alemão, Das Ding.

Assim, se a repetição sempre gera novos vestígios de experiências e não a imediata adequação como semelhante, ela sempre resulta parcialmente em falha e por isso mesmo ela é sempre nova: cada repetição  acrescenta uma marca à série de precedentes. Mas entre as repetições falhadas, subsiste um resto que permite ao desejo relançar-se.

Podemos dizer que a repetição fabrica restos, isto é, o que é produzido pelo fracasso da reprodução do mesmo. Esse resto assume o status de objeto a, causa do desejo. O objeto a, visado no outro, se encontra retrospectivamente gerado por experiências de repetições, sendo que estas se produzem em uma relação de vestígios a vestígios, que fracassa em significar exatamente o real. Essa série de repetições é que dá lugar aos objetos e não à ideia de que um objeto já estaria constituído  e portanto, provocaria repetições para ser reencontrado.

Quando a criança brinca, uma série de equivalências ocorrem, em um sistema em que os objetos se substituem uns aos outros, pondo dessa forma, seu mundo em movimento. Sendo assim, repetição não é cópia de um modelo e sim, um  encontro. Sylvie Le Polichet fala da repetição de um modo que considero poético e por isso, o escolhi : “ a repetição é sempre nova, pois ela se produz em um novo lugar, ou melhor, ela produz um novo lugar, criado pelo encontro de duas temporalidades diferentes e pela atualização dos efeitos desse encontro. Cada um desses encontros gera uma singularidade, pois não só cada “ agora” é determinado pelo confronto com o precedente e com o seguinte, como também as diversas combinações de fragmentos podem se encontrar investidos de maneira privilegiada nesse momento.”

Já Denise Lachaud nos lembra que o traço da situação primeira da operação de linguagem terá por referente alguma coisa  de perdido: o objeto a, objeto causa do desejo. No caso do neto de Freud, o objeto a presentificou a perda enquanto perda, mas também enquanto ausência. Se ela vem a repetir-se é porque este traço reenvia a alguma coisa perdida quando da sua inscrição, pelo próprio fato de inscrevê-la, de repetí-la  portanto. O que se repete é o que separa a ausência da presença, o Fort e o Da, o aqui e o que vai embora, isto é, o corte.

Para entrar ao universo do simbólico, que como vemos, remete à morte da Coisa( processo que a criança atravessa para sair da sua falta em ser e entrar no universo simbólico), o sujeito fica privado de algo dele mesmo que toma valor de significante de sua alienação. Ao alienar-se na linguagem, a criança se apóia em um universo simbólico, se identifica ao desejo do outro ao mesmo tempo que desconhece essa determinação na formulação de suas demandas. Neste ato, institui-se a relação sempre repetida entre sujeito e o  objeto perdido onde seu desejo se aliena .Assim, o sujeito que sofreu a operação do significante está identificado ao que apaga a Coisa, está identificado ao traço do apagamento, o Um descrito por Freud, traço unário, enquanto que excluído.

Podemos  dizer que esse primeiro suposto traço unário é o conceito da falta, necessária para se instituir o desejo, marcando a ausência da Coisa, designando o lugar do objeto caído e se repetindo na sua relação ao objeto , entre o que ele instalou de um ideal e sua busca.

Freud inicialmente usa em sua obra a expressão “ traços mnêmicos” , depois  traço unário e mais adiante, representação de coisa, mas não por se tratar da representação das coisas e sim, para assinalar essa representação de traço como sendo o encontro entre o futuro sujeito com sua falta em ser, entregando a representação real do corpo em troca dessa falta. Há uma operação de separação da carne do corpo, a carne como real do corpo e faz entrar o traço unário como simbólico do corpo. Ao real desse momento, nomeia-se castração primária.

A Coisa, Das Ding é o que se instala no sujeito através do esburacamento que é a entrada do simbólico fazendo furo no real, um furo sem fundo e essa circulação vai formando o corpo. Esse tempo é o da inscrição do simbólico no real do corpo.

Séculos mais tarde, me vejo como Freud, participando ativamente de uma brincadeira originada no encontro com o neto de 3 anos de uma pessoa próxima.  Um certo dia, chegando em sua casa, ele olha para mim e me convoca: “ vamos brincar?” Eu  aceito o convite e ele me questiona: “ mas cadê o seu brinquedo?” Eu digo que acabo de chegar de viagem e que vim despreparada, mas gostaria de conhecer os brinquedos dele.

Para minha surpresa e também alívio, ao invés dele vir com brinquedos eletrônicos ou algo do tipo, ele pega um livrinho infantil com atividades e desenhos e um lápis e começamos a  brincar de desenhar. Mas foi em uma das páginas que ele encontrou  um jogo de caça palavras e me disse que já sabia qual era a letra do seu nome. Quando eu peço para que ele me mostre, ele usa o lápis para fazer uma marca sobre a mesma. Porém, como o papel estava apoiado em uma superfície macia, um tapete, ele acaba fazendo um furo e fica maravilhado com essa possibilidade. Começa a furar todas as outras letras do livrinho, depois os desenhos e constrói uma história: ele  fura o mar desenhado no papel e diz que a água iria vazar, os peixes caírem.

O sujeito é assim, fruto de uma relação, de um laço que o engaja com seus pais, com sua família, com seu meio social. E antes mesmo dele poder se reconhecer pelo simbólico num lugar social, essa aventura tem seu início na subordinação à imagem, primeiramente  a do outro no espelho e, depois, como reflexo desse outro, à do Eu.

O Eu é o que surge ao sujeito a partir da experiência especular, imagem de si capaz de produzir nele a ilusão da integração da sua realidade corporal. Mas essa ilusão é também aposta subjetiva oferecida ao sujeito, pois ela integra, uma vez que oferece à criança a possibilidade de se ver através do espelho, no corpo do adulto, podendo se ver num corpo integrado e não mais fragmentado.

É a propósito dessa relação do objeto à sua imagem no espelho que Lacan funda a relação imaginária constitutiva do Eu. O homem se olha no espelho e se reconhece no reflexo que ele percebe.

O narcisismo primário, iniciado pelo estádio do espelho, precedido pela experiência do desamparo e pelo encontro com o outro, instaura tanto a imagem, como a função do Eu, fundamentais para a posterior estruturação edípica. Nesse momento a criança pode assumir uma imagem, gesto que a cada vez produz uma nova identificação, uma imagem é uma projeção de sua superfície corporal e é por esse movimento, pelo qual a criança se assume através da imagem de si que recebe do outro, que ela pode realizar-se como si mesma.

Isso modifica profundamente sua relação com a formação da imagem em geral e coordena as relações do eu com os seus semelhantes.

Assumir uma imagem de si é um ato psíquico importante e formativo, pois é a partir da unidade imagética que a criança infere a unidade de si .

Mas quando uma criança se olha no espelho, ela não pode ver como seu corpo foi marcado pelos cuidados de quem se ocupou dela, as zonas que ficaram investidas eroticamente, uma vez que ao cuidar de uma criança, se está erotizando seu corpo, ajudando-a a construir um corpo pulsional e não meramente biológico e funcional.

Da produção entre o que é visto no espelho e do que não pode ser visto causará uma assimetria entre o sujeito e sua própria realidade, que não poderia coincidir em todos os pontos com o Outro. Eis o furo, o que é produzido por essa não coincidência, para que o sujeito possa escapar de uma subordinação completa à imagem de si. O furo em psicanálise tem um papel importante pelo movimento que produz : ele não é para ser tamponado. Esse vazio será aquilo mesmo que sustentará o laço com o outro.

Mas na vida do sujeito, esse espaço vazio não resta como puro vazio. Ele já é, pela própria ação defensiva do aparelho psíquico, ornamentado pela fantasia. Pela via da fantasia, o sujeito cria para si um simulacro da posse do objeto supostamente perdido, que teria havido no lugar do furo. A fantasia tem a propriedade de construir a imagem privilegiada com a qual o sujeito apoia sua experiência de satisfação. É pela via da construção dos ideais que o sujeito mantém sua relação com o que falta, o sujeito tenta responder ao que supõe ser o pedido que o Outro lhe endereça.

No ensino de Lacan, ele se interroga sobre o que pode ser o Eu e para explicá-lo, recorre à ajuda da topologia. Ele recorre à um objeto da topologia conhecido como toro, no qual a noção de interior está comprometida com o espaço que funda nosso corpo. Clara Cruglak esclarece que essa topologia, poderíamos chamar de a topologia do Eu.

Para facilitar nossa compreensão, um pneu de borracha é o objeto que mais  se assemelha ao toro da topologia. Portanto, esse objeto possui um furo e é da função do furo que serve para apresentar aquilo que na estrutura do sujeito é da ordem do irredutível: o vazio que o constitui. Assim, nas palavras de Clara Cruglak – nem defeito, nem falha e sim, falta. Furo estrutural e estruturante.

Lacan define o toro como uma organização do furo por ser uma superfície sem margem que delimita um interior e um exterior com a especificidade de possuir um centro dito “ exterior” e é este centro furado que permite a nodulação entre real, simbólico e imaginário.

No toro, falando de um modo bem simples, existem dois trajetos: um que descreve o desejo e outro, a demanda. Ou melhor, através da topologia do toro, podemos ver ilustrada a demanda e sua repetição fundamental que se realiza no desconhecimento daquilo que ela exprime, um desejo desconhecido, mas essencial. A demanda, no que se repete, desenha o objeto como faltoso, indicando que ele é sempre fracassado, mas trata-se de um fracasso estrutural, pois está ligado ao percurso da demanda e à sua repetição. Dessa maneira, não só o fracasso é fundamental à demanda, como a figura do objeto a se perfila no vazio central.

Integrando a topologia à clínica, enquanto uma mãe demanda objetos ao outro, ela acaba produzindo uma tentativa de acreditar que possa existir um objeto para a sua demanda e como não há, ela irá produzir uma resposta do tipo: “ não é isso” e mais uma vez a criança tentará responder à sua demanda e se deparará  com outro” não é isso”, ou seja,  essa resposta, pela sua repetição, faz com que a pulsão seja relançada permanentemente e o objeto estará sempre escapando.

Mas vale lembrar que quando falamos do vazio constitutivo do sujeito, apoiado na figura do toro, falamos também da importância do Nome do Pai, que surge como função a partir da primeira privação na origem. A função do Nome do Pai pode ser realizada por qualquer um que possa assumir a lei, proibindo o incesto ao fazer de uma mulher a causa de seu desejo. Será então, enquanto significante capaz de dar um sentido ao desejo da mãe que se pode situar a função do Nome do Pai e para que esse processo opere, é preciso saber o seu valor posicional, isto é, que o investimento fálico esteja posto no lugar forjado pela incorporação dos atributos não porque exista alguém que os possua, mas porque alguém pode detê-los.

Se a mãe não está submetida à instância que priva do gozo incestuoso e impede que faça do filho um objeto, o filho se encontrará capturado como objeto de gozo da mãe sem poder chegar ao lugar simbólico da função fálica.

Sílvia Amigo afirma que a  marca da perda do objeto passada para a imagem é tão importante na constituição de um sujeito, pois será nela que encontraremos o crivo para verificar se ela poderá servir de cobertura de um objeto real . O objeto é tido como perdido quando se adiciona à expulsão de gozo que a incorporação da linguagem contém e à  contagem de gozo que é a inscrição de traço unário, a perda do narcisismo. Somente neste momento o objeto se constitui como objeto perdido por conta do sujeito.

Em outras palavras, a Coisa é uma falta que passa de uma geração à outra e funda o objeto a, ela é o furo em torno do qual tudo se organiza. O objeto a é fundamental, pois o que causa o desejo é a falta e para uma  mãe  poder desejar, precisa haver falta nela, mas não é a falta de um objeto em si. O lugar do objeto a deverá ficar vazio, assim tudo o que se propor a ocupar esse lugar não servirá, nada será causa do desejo. Desejar é poder assumir que existe falta.

Questão importante, uma vez que o modo como cada sujeito desenha o contorno de seu furo é o que o faz único no plano imaginário. E os objetos que o Outro oferece  ao falasser fazem com que se acomodem os furos do corpo. Por essa razão, quando não se olha uma criança nos olhos, quando não se oferece à ela um olhar como objeto, o furo do oco palpebral não se acomoda para receber o olhar. E assim ocorre com o ouvido, a boca  e o ânus.

Quando a criança ingressa no campo do Outro, ela está ingressando no campo pulsional da linguagem e a pulsão é que vai organizar seus trajetos ao redor dos furos do corpo e também fará com que o corpo seja percebido como fragmentado, a fatia da boca, a fatia dos olhos e assim por diante. E será posteriormente, no estádio do espelho que a criança terá a possibilidade de ter a unidade corporal ao preço da alienação ao Outro, mas também constituindo o eu ideal.

O Eu Ideal é a miragem da impossível adequação da demanda materna e o objeto que a essa demanda seja proposto.

Mas existe um modo pelo qual a criança se faz muito precocemente objeto do desejo do  Outro e  é aqui que  se introduz a questão do fantasma, pois se como vimos na figura do toro, este possui um buraco central e é neste buraco que que está o objeto que sempre escapa, porque só há objeto se houver demanda. O fantasma é o projeto de realizar o Eu Ideal, ou seja, o projeto de se constituir como objeto adequado à demanda materna. Podemos nos expressar assim: è ao desejo do Outro que eu me proponho como objeto e esse desejo do Outro evidentemente se articula numa demanda.

O desejo encontra-se uma relação  na qual se articulam a imagem e o fantasma, no qual o objeto a enquanto causa sustenta essa operação.

Para o neurótico, o desejo é algo que escapa o tempo todo, então, o fantasma de cada um acaba sendo este obstáculo diante do enigma do desejo humano, mas também uma proteção. Na análise, o fantasma  vai mascarar o real do desejo. Desta forma, vemos na clínica sujeitos que se fazem de boca, fezes, olhar ou voz  de um gozo que o envolveu e ele não se destacou.

O sujeito não percebe um gozo do qual ele se fez objeto e esse objeto faz buraco, furo em todas as enunciações e inclinações do sujeito. A partir daí, se delineia toda uma sintomatologia que logo nas primeiras entrevistas podemos ver.

Quando alguém está apoiado em um eu especular e não pôde ainda passar para um eu não especular, viverá como afronta qualquer besteira que o ameace, será alguém frágil em seu narcisismo.    A psicanálise sabe o quanto é caro para que um sujeito possa escapar de uma subordinação completa de sua imagem em si.  Há muitos casos clínicos que sem serem psicoses, implicam a gravidade do fracasso da constituição da fantasia.

Quanto ao menino de três anos  que conheci, ele descobriu que usando um pouco mais de força, pode fazer um furo maior no papel e realiza o ato criativo de brincar de ver por este furo. Ele soube  que é pelas aberturas, que uma troca entre o exterior e o interior do corpo pode se estabelecer. Nos comunicamos.

Graziela Rebouças

Maio de 2015

 

Referências Bibliográficas

Amigo, S. Clínica dos fracassos da fantasia. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007.

Cruglack, C. Clínica da Identificação.

Dicionário de Psicanálise: Freud e Lacan, vol.1. Salvador: Ágalma, 1997.

Granon-Lafont, J. A topologia de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1988.

Le Polichet, S. O tempo na psicanálise.

Násio, J.D. Meu corpo e suas imagens. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2009.

Tyszler, J.J. O fantasma na clínica psicanalítica. Recife: Ed. Do Tradutor, 2014.

 

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