Discussão Clínica e Teórica sobre inibição na infância- Graziela Rebouças

Certa vez ouvi Angela Valore responder quando questionada sobre a razão pela qual vinha há alguns anos se ocupando do tema da inibição e suas articulações, que era porque observava em sua clínica a pertinência desse tema, bem como o fato de não haver muitas referências bibliográficas sobre o mesmo.

Quanto à mim, foi a clínica com crianças que me trouxe e continua trazendo muitas questões à respeito de como estão estruturadas suas subjetividades nos casos em que as crianças apresentam dificuldades em acompanhar a série escolar, fazer laço com seus colegas, atrasos no desenvolvimento motor e/ou aquisição da fala.
Questionada pelas escolas à respeito do que ocorre com tais crianças e de como auxiliá-las , também fui em busca de referências.

As escolas se interessam em compreender os alunos que têm dificuldades cognitivas e de interação, mas o material que têm acesso é de referência médica. É um desafio poder esclarecer conceitos psicanalíticos, como por exemplo, a clínica da inibição, não somente às escolas, como também aos demais profissionais que trabalham em parceria como fonoaudiólogos, pedagogos, psicopedagogos, terapeutas ocupacionais.
Esclarecer o funcionamento psíquico de crianças em desenvolvimento sócio-escolar faz grande diferença em relação à capacidade de expansão projetiva, à compreensão da ausência ou presença de construções imaginárias, no entendimento caso à caso dos atrasos nas aquisições motoras e da fala e nas dificuldades nas relações com outrem.
O acesso às informações/diagnósticos médicos pode nos fazer refletir sobre as razões pelas quais estes conhecimentos foram popularizados; bem como é cabível uma reflexão sobre o laço social atual, mas não é o objetivo desse trabalho.
A questão a se refletir é como compreendermos as diferentes subjetividades em crianças com dificuldades já citadas e posteriormente transmitir nossos entendimentos aos profissionais que trabalham em parceria para melhor auxiliar a criança em sua promoção.
Segundo Marie Cristine Lasnik, desde 1960 até os dias atuais, os manuais de classificação e estatística internacional de doenças e problemas relacionados à saúde apresentam várias mudanças, sendo que nos últimos anos a mudança mais difundida foi a classificação do transtorno do espectro austístico . Para resumir, segundo a autora, nos últimos quinze anos, o DSM sofreu alterações tais como: a noção de “transtornos invasivos do desenvolvimento” substituiu a noção de psicose infantil, com foco crescente no autismo. Estabeleceu-se um consenso sobre critérios diagnósticos do autismo que, retomando a descrição de Kanner, permitiram sua aplicação ao mesmo tempo à pacientes com retardo mental severo como também à casos em que a sintomatologia aparece atenuada.
O transtorno do espectro autístico figura em um capítulo intitulado “Transtornos neurológicos do desenvolvimento”, um nome justificado pelos dados acumulados nos últimos anos, sugerindo a importância de fatores genéticos, bem como de anomalias no desenvolvimento e no funcionamento de certas estruturas cerebrais.
Entretanto, a experiência da clínica psicanalítica freudlacaniana constata não só recobrimentos importantes entre o autismo e outros transtornos incluídos no que se nomeia “Transtornos Invasivos do Desenvolvimento”, como considera outros conceitos . Isto é, a clínica psicanalítica considera não apenas os sintomas apresentados, como também todo o histórico de vida da criança, inclusive a história dos pais.
Lacan nos deu importantes contribuições para refletirmos à respeito das estruturas dos sujeitos que nos procuram, sejam eles crianças, adolescentes ou adultos, a partir do nó Borromeu. O nó é um modo de articulação entre os registros Real, Imaginário e Simbólico que para estarem articulados dependem de alguns movimentos que Lacan retoma a partir de sua leitura de Freud.
Estes movimentos também podem ser abordados em termos das dimensões da falta nos três registros. Assim, se pensarmos no nó Borromeu, como propôs Lacan, o primeiro movimento das cordas que pode posteriormente dar origem ao nó, se dá entre o Real e o Simbólico. A corda do Real se sobrepõe à do Simbólico, em outros termos, significa que quando nasce o bebê, este possui um organismo muito delicado evidentemente e que todas as estimulações, sejam elas de fome, dor ou desconforto, precisam ser acalmadas com urgência, o real do corpo do bebê deve ser priorizado.
O segundo movimento da trança se dá quando ocorre a passagem da corda do Imaginário sobre a corda do Real: é quando o bebezinho, este pequeno ser, é investido pelos pais de modo fálico. É o que Freud chamava de “Sua majestade o bebê”.
O terceiro movimento da trança ocorre quando a corda do Simbólico se sobrepõe à do Imaginário, ou seja, uma vez em que o bebê ocupou o lugar de objeto de gozo fálico pela mãe, será ela quem irá colocá-lo para dormir, transmitindo ao bebê que ele é, sim, muito amado, mas que ela também o quer dormindo por um período, pois deseja se dirigir à outro lugar – estar ao lado do pai na cama. Momento importante por tratar-se da primeira castração simbólica.
Como uma trança de cabelo, estes movimentos serão refeitos muitas vezes, mas não de modo cronológico. E depois haverá um intervalo de tempo até os mesmos serem retomados por volta dos seis meses de idade, etapa em que Lacan situa o estádio do espelho.
Se tais movimentos forem possíveis e puderem chegar ao momento da castração simbólica, teremos uma amarração como o nó Borromeu, dando origem à uma estruturação neurótica. Mas ao escutarmos os sujeitos na clínica, nos deparamos com tantas desventuras, que às vezes parece ser mais fácil concebermos as possiblidades de erros do que de acertos nesse percurso. Também não podemos nos esquecer de dar atenção ao fato de que diferentes erros nesse percurso podem levar ao mesmo fracasso do nó.
Mas não quero me ocupar aqui de erros no percurso que podem levar à uma estruturação não borromeica, como nos casos de autismo ou psicose. Logicamente que essas estruturações merecem todo o investimento e é com muita satisfação que temos encontrado ótimos trabalhos de psicanalistas que se dedicam à estes temas e trazem valorosas contribuições para tais crianças, familiares e escolas.
Penso que se não fosse pelas escolas que geralmente fazem o encaminhamento de crianças descritas no início deste trabalho, que chamam a atenção dos professores por apresentarem dificuldades no relacionamento com pares, dificuldades de aprendizagem, excesso de imaginação em detrimento da simbolização, tais crianças poderiam passar despercebidas pelos pais. Inclusive são chamadas de boazinhas, cordatas.
Assim, chamo a atenção para a clínica da inibição, uma clínica em que também é fruto de acidentes no percurso das cordas da trança, mas que não chega ao fracasso do nó. De acordo com Lacan, no caso da Inibição, não há um fracasso no enodamento borromeano, tampouco a Inibição é uma estrutura clínica e muito menos um diagnóstico. Trata-se de sujeitos que são enodados borromeanamente, que estão no campo das neuroses, mas que em suas constituições subjetivas houveram falhas que acarretaram o impedimento da passagem de um bebê do lugar de objeto de gozo para o Outro, ao lugar de objeto causa de desejo do Outro.
Para falar em Inibição é preciso fazer a ponte com o desejo de reter, momento em que toda criança atravessa ao longo da preparação para retirar as fraldas. Ceder ou não ceder é a questão fundamental para a Inibição. Poderíamos pensar que ceder ou reter não fará diferença, uma vez que o Outro sempre gozará, mas a criança ainda muito pequena, diante da demanda da mãe para que num momento dê suas fezes, noutro as retenha, atravessa essa etapa acreditando que na dúvida, é melhor reter. Essa escolha em não ceder, ainda que muito primitiva, já se constitui com um grande peso na subjetividade da criança em formação.
Reter as fezes é um sintoma típico na infância, que se faz no corpo da criancinha, revelando o fantasma do Outro, portanto esse sintoma não é tratado e Lacan o chama de sintoma posto no museu. Eis a raiz de um percurso que fornece terreno fértil para futuramente poder brotar a inibição.
A inibição não é uma escolha, não é uma formação do inconsciente, não há a manifestação de um recalcado, ao contrário, ela é da ordem do Real e do Imaginário. Tanto a angústia, como a inibição, fazem parte da mesma intersecção do nó Borromeu, entre o Real e o Imaginário.
Porém, uma vez que ninguém escapa da demanda da mãe em ceder e reter as fezes, estaríamos todos condenados à inibição? Certamente não, há um percurso que leva à inibição e este percurso está articulado à angústia e ao desejo. Para início de partida rumo ao nascimento de um sujeito, é preciso que o Outro, representado pela mãe, dê sua falta, sua castração, para que a criança possa ser objeto a para ele, e que, sobretudo, o Outro siga faltante a despeito da criança.
Embora o Che vuoi seja mítico, ele constitui o momento de se assegurar de que o Outro não precisa da criança para obturar sua falta, de que o Outro não tome a criança como objeto de um gozo que se sobrepôs ao gozo fálico. Aliás, o gozo fálico é saudável, necessário e passa pela palavra, enquanto que o gozo do Outro ,gozo que estruturalmente é impossível, requer uma marca que garanta por conta própria sua impossibilidade.
Quando a criança não tem certeza de que possa ser objeto causa de desejo para o Outro, haverá angústia.
No grafo do desejo, Lacan mostra que a constituição da imagem narcísica depende de que o Outro dê sua castração, e o piso, que neste grafo está situada a imagem narcísica, é também o lugar onde se enoda a inibição. Então o sujeito implicado na inibição é aquele em que a descoberta do vazio do lado do Outro não é segura, de modo que, ao invés de duvidar frente ao que o Outro quer de mim, como ocorre na angústia, ele tem certeza de que necessita dar ao Outro algo que aplaque sua falta. Com o receio de que o Outro queira todo o corpo do sujeito, este se defende desse gozo opressor oferecendo sua própria patologia.
Tratando-se de crianças, é deveras triste presenciar a inibição, seja em que roupagem esta se apresente; confesso inclusive que já fiquei em dúvida se havia cometido um ato de loucura, ao invés de um ato analítico, quando presenciei uma jovem criança não conseguindo sustentar seu aborrecimento com sua mãe, em um momento em que não foi o filho exemplar, se esmerar em desenhar flores para dar à mãe com receio de perder o seu amor. Diante dessa cena eu disse em voz alta e firme que a proibia de entregar seus desenhos para sua mãe.
Questionar os diagnósticos que rotulam as crianças é papel do analista, bem como estar atento para aspectos sutis da constituição de uma subjetividade que traz semelhanças com outros quadros, como é o caso da inibição e dos transtornos do espectro autístico. Poder apontar tais nuances à escola e familiares, pode impedir que uma criança na condição de inibida seja medicada.
É preciso também dar aos pais suas responsabilidades quando instrumentalizam seus filhos, é comum nos depararmos em quadros de inibição, principalmente as graves, com maridos que se deixam acomodar no lugar de cumpridores das exigências de suas esposas, maridos que abrem mão de seu desejo sexual porque temem se afastar de casa e as esposas abocanharem mais ainda seus filhos… tragédia do desejo.
Se por um lado, a inibição aponta para a detenção de um movimento e os pobres sujeitos nessa condição de inibidos acreditam somente na retenção como defesa, por outro lado, nós, analistas temos muito o que movimentar.
Curiosamente recordo-me, nesse momento, de um poema de Cecília Meireles em que se chama “ a arte de ser feliz”. Parece estranho uma possível receita de felicidade quando se fala do trabalho do analista, mas como a referida autora não é ingênua, vale a pena ouví-lo:
“ Houve um tempo em que minha janela se abria
Sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde e , em silêncio ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma regra: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava feliz.
As vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lopes de Veja.
Às vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
Que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.”

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