A Letra

Sobre a Letra-associação de psicanálise

Tão acompanhados quanto se pode estar, numa empreitada à qual cada um se liga de forma absolutamente singular, fundamos, em dois de agosto deste ano de dois mil e oito, a Letra – Associação de Psicanálise. O objetivo comum a todos, em torno do qual nos reunimos, e que ora alcançamos, era inicialmente a criação de um site de psicanálise. Um espaço acessível de diferentes pontos, sejam eles geográfica ou topologicamente localizáveis, a ser colocado a serviço do debate e da difusão do discurso psicanalítico.

Um lugar por onde a palavra possa circular. Onde a produção de cada um encontre a acolhida que merece, conforme o percurso que testemunhe. Onde as equivocações não sejam tratadas como erros e o impossível não seja reduzido à impotência. Por aí, contamos fazer transitar não apenas textos, mas a sua discussão; a divulgação das iniciativas de cada analista, quanto ao seu trabalho de ensino e transmissão, às publicações e perspectivas; as propostas de trabalho conjunto, seja entre nós, seja com outros colegas ou outras associações.

Aí, cada qual fala em seu próprio nome. Sem esperar que a LETRA o avalize, autorize, reconheça ou corrobore. Cada qual se responsabiliza pelo que diz e pelo que isso diz de sua posição quanto ao discurso psicanalítico. Espera-se, naturalmente, que isso faça diferença. E que essas diferenças possam ser ditas e na medida do possível, respondidas. Até aqui, era a que nos propúnhamos.

Fundamos, talvez, uma instituição sem sede, a não ser no espaço moebiano dos relançamentos do discurso. Não se trata de fugir ao mal-estar que o convívio com a diferença inevitavelmente instala nas instituições psicanalíticas. Tampouco de reivindicar uma relação dual com a psicanálise que não seja mediada pelo que, nas instituições onde se faz legitimamente transmissão, tem função de alteridade. Trata-se, sim, de fazer operar uma ferramenta que, sabemos, não é sem problemas. Parece haver uma antinomia entre os avatares da mídia eletrônica e o que o discurso da psicanálise faz avançar. E talvez precisemos instituir inicialmente entre nós um modo ético de nos servir da primeira sem nos afastar das “leis de que ainda somos tributários” e do discurso que nos concerne.

Para então nos autorizarmos a fazer do que hoje inauguramos, instituição. Instituição na medida em que por nosso ato a instituímos, mas que só continuará a sê-lo na medida em que por nosso trabalho e produção a mantenhamos, literalmente, no ar. Como uma bola que está em jogo, o lugar da enunciação não tem dono. Cada um o ocupará:

  • segundo a posição em que se encontre entre o “ali onde isso estava” e o advento do analista, ou não, dependendo do penhor que tenha feito, ou faça, para que sua própria análise o produza como efeito;
  • segundo a posição em que se encontre quanto ao seu percurso de formação que, para os que estão nesse caminho, continuará a ser buscada como e onde pode, eticamente, ser encontrada;
  • por fim, mas não para terminar, segundo a sua posição no que concerne ao desejo de fazer advir a pura diferença.

Não é portanto uma iniciativa que possa sempre ser identificada pela referência do “entre pares”. Somos freqüentemente lembrados de que os números pares o são porque em todos eles está o dois, e que muitas vezes quando alguém se dirige ao outro como um par, é no dual dessa relação que aposta. Logo, fala a si mesmo, à sua imagem e é um pedido de reconhecimento, de inclusão que dirige ao outro. Constituímos, então, uma reunião de ímpares.

E, se pelo que é partilhável no comprometimento com uma particular ética, for legítimo esperar encontrar aqui pares, que sejam pares de díspares, e não pares de iguais.

Que a flecha que disparamos ao nos reunir pela primeira vez ao redor desse propósito e que hoje atinge seu alvo não encontre aí senão a força que o relance.

Afinal, ainda que a cada volta não logremos fazer senão semi-descobertas, como dizia o poeta, é preciso navegar.

Bom trabalho a todos nós.

Curitiba, 20 de Dezembro de 2008.

Angela M. S. Valore

Presidente da Letra – associação de psicanálise

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