Discussão Clínica e Teórica sobre inibição na infância- Graziela Rebouças

Certa vez ouvi Angela Valore responder quando questionada sobre a razão pela qual vinha há alguns anos se ocupando do tema da inibição e suas articulações, que era porque observava em sua clínica a pertinência desse tema, bem como o fato de não haver muitas referências bibliográficas sobre o mesmo.

Quanto à mim, foi a clínica com crianças que me trouxe e continua trazendo muitas questões à respeito de como estão estruturadas suas subjetividades nos casos em que as crianças apresentam dificuldades em acompanhar a série escolar, fazer laço com seus colegas, atrasos no desenvolvimento motor e/ou aquisição da fala.
Questionada pelas escolas à respeito do que ocorre com tais crianças e de como auxiliá-las , também fui em busca de referências.

As escolas se interessam em compreender os alunos que têm dificuldades cognitivas e de interação, mas o material que têm acesso é de referência médica. É um desafio poder esclarecer conceitos psicanalíticos, como por exemplo, a clínica da inibição, não somente às escolas, como também aos demais profissionais que trabalham em parceria como fonoaudiólogos, pedagogos, psicopedagogos, terapeutas ocupacionais.
Esclarecer o funcionamento psíquico de crianças em desenvolvimento sócio-escolar faz grande diferença em relação à capacidade de expansão projetiva, à compreensão da ausência ou presença de construções imaginárias, no entendimento caso à caso dos atrasos nas aquisições motoras e da fala e nas dificuldades nas relações com outrem.
O acesso às informações/diagnósticos médicos pode nos fazer refletir sobre as razões pelas quais estes conhecimentos foram popularizados; bem como é cabível uma reflexão sobre o laço social atual, mas não é o objetivo desse trabalho.
A questão a se refletir é como compreendermos as diferentes subjetividades em crianças com dificuldades já citadas e posteriormente transmitir nossos entendimentos aos profissionais que trabalham em parceria para melhor auxiliar a criança em sua promoção.
Segundo Marie Cristine Lasnik, desde 1960 até os dias atuais, os manuais de classificação e estatística internacional de doenças e problemas relacionados à saúde apresentam várias mudanças, sendo que nos últimos anos a mudança mais difundida foi a classificação do transtorno do espectro austístico . Para resumir, segundo a autora, nos últimos quinze anos, o DSM sofreu alterações tais como: a noção de “transtornos invasivos do desenvolvimento” substituiu a noção de psicose infantil, com foco crescente no autismo. Estabeleceu-se um consenso sobre critérios diagnósticos do autismo que, retomando a descrição de Kanner, permitiram sua aplicação ao mesmo tempo à pacientes com retardo mental severo como também à casos em que a sintomatologia aparece atenuada.
O transtorno do espectro autístico figura em um capítulo intitulado “Transtornos neurológicos do desenvolvimento”, um nome justificado pelos dados acumulados nos últimos anos, sugerindo a importância de fatores genéticos, bem como de anomalias no desenvolvimento e no funcionamento de certas estruturas cerebrais.
Entretanto, a experiência da clínica psicanalítica freudlacaniana constata não só recobrimentos importantes entre o autismo e outros transtornos incluídos no que se nomeia “Transtornos Invasivos do Desenvolvimento”, como considera outros conceitos . Isto é, a clínica psicanalítica considera não apenas os sintomas apresentados, como também todo o histórico de vida da criança, inclusive a história dos pais.
Lacan nos deu importantes contribuições para refletirmos à respeito das estruturas dos sujeitos que nos procuram, sejam eles crianças, adolescentes ou adultos, a partir do nó Borromeu. O nó é um modo de articulação entre os registros Real, Imaginário e Simbólico que para estarem articulados dependem de alguns movimentos que Lacan retoma a partir de sua leitura de Freud.
Estes movimentos também podem ser abordados em termos das dimensões da falta nos três registros. Assim, se pensarmos no nó Borromeu, como propôs Lacan, o primeiro movimento das cordas que pode posteriormente dar origem ao nó, se dá entre o Real e o Simbólico. A corda do Real se sobrepõe à do Simbólico, em outros termos, significa que quando nasce o bebê, este possui um organismo muito delicado evidentemente e que todas as estimulações, sejam elas de fome, dor ou desconforto, precisam ser acalmadas com urgência, o real do corpo do bebê deve ser priorizado.
O segundo movimento da trança se dá quando ocorre a passagem da corda do Imaginário sobre a corda do Real: é quando o bebezinho, este pequeno ser, é investido pelos pais de modo fálico. É o que Freud chamava de “Sua majestade o bebê”.
O terceiro movimento da trança ocorre quando a corda do Simbólico se sobrepõe à do Imaginário, ou seja, uma vez em que o bebê ocupou o lugar de objeto de gozo fálico pela mãe, será ela quem irá colocá-lo para dormir, transmitindo ao bebê que ele é, sim, muito amado, mas que ela também o quer dormindo por um período, pois deseja se dirigir à outro lugar – estar ao lado do pai na cama. Momento importante por tratar-se da primeira castração simbólica.
Como uma trança de cabelo, estes movimentos serão refeitos muitas vezes, mas não de modo cronológico. E depois haverá um intervalo de tempo até os mesmos serem retomados por volta dos seis meses de idade, etapa em que Lacan situa o estádio do espelho.
Se tais movimentos forem possíveis e puderem chegar ao momento da castração simbólica, teremos uma amarração como o nó Borromeu, dando origem à uma estruturação neurótica. Mas ao escutarmos os sujeitos na clínica, nos deparamos com tantas desventuras, que às vezes parece ser mais fácil concebermos as possiblidades de erros do que de acertos nesse percurso. Também não podemos nos esquecer de dar atenção ao fato de que diferentes erros nesse percurso podem levar ao mesmo fracasso do nó.
Mas não quero me ocupar aqui de erros no percurso que podem levar à uma estruturação não borromeica, como nos casos de autismo ou psicose. Logicamente que essas estruturações merecem todo o investimento e é com muita satisfação que temos encontrado ótimos trabalhos de psicanalistas que se dedicam à estes temas e trazem valorosas contribuições para tais crianças, familiares e escolas.
Penso que se não fosse pelas escolas que geralmente fazem o encaminhamento de crianças descritas no início deste trabalho, que chamam a atenção dos professores por apresentarem dificuldades no relacionamento com pares, dificuldades de aprendizagem, excesso de imaginação em detrimento da simbolização, tais crianças poderiam passar despercebidas pelos pais. Inclusive são chamadas de boazinhas, cordatas.
Assim, chamo a atenção para a clínica da inibição, uma clínica em que também é fruto de acidentes no percurso das cordas da trança, mas que não chega ao fracasso do nó. De acordo com Lacan, no caso da Inibição, não há um fracasso no enodamento borromeano, tampouco a Inibição é uma estrutura clínica e muito menos um diagnóstico. Trata-se de sujeitos que são enodados borromeanamente, que estão no campo das neuroses, mas que em suas constituições subjetivas houveram falhas que acarretaram o impedimento da passagem de um bebê do lugar de objeto de gozo para o Outro, ao lugar de objeto causa de desejo do Outro.
Para falar em Inibição é preciso fazer a ponte com o desejo de reter, momento em que toda criança atravessa ao longo da preparação para retirar as fraldas. Ceder ou não ceder é a questão fundamental para a Inibição. Poderíamos pensar que ceder ou reter não fará diferença, uma vez que o Outro sempre gozará, mas a criança ainda muito pequena, diante da demanda da mãe para que num momento dê suas fezes, noutro as retenha, atravessa essa etapa acreditando que na dúvida, é melhor reter. Essa escolha em não ceder, ainda que muito primitiva, já se constitui com um grande peso na subjetividade da criança em formação.
Reter as fezes é um sintoma típico na infância, que se faz no corpo da criancinha, revelando o fantasma do Outro, portanto esse sintoma não é tratado e Lacan o chama de sintoma posto no museu. Eis a raiz de um percurso que fornece terreno fértil para futuramente poder brotar a inibição.
A inibição não é uma escolha, não é uma formação do inconsciente, não há a manifestação de um recalcado, ao contrário, ela é da ordem do Real e do Imaginário. Tanto a angústia, como a inibição, fazem parte da mesma intersecção do nó Borromeu, entre o Real e o Imaginário.
Porém, uma vez que ninguém escapa da demanda da mãe em ceder e reter as fezes, estaríamos todos condenados à inibição? Certamente não, há um percurso que leva à inibição e este percurso está articulado à angústia e ao desejo. Para início de partida rumo ao nascimento de um sujeito, é preciso que o Outro, representado pela mãe, dê sua falta, sua castração, para que a criança possa ser objeto a para ele, e que, sobretudo, o Outro siga faltante a despeito da criança.
Embora o Che vuoi seja mítico, ele constitui o momento de se assegurar de que o Outro não precisa da criança para obturar sua falta, de que o Outro não tome a criança como objeto de um gozo que se sobrepôs ao gozo fálico. Aliás, o gozo fálico é saudável, necessário e passa pela palavra, enquanto que o gozo do Outro ,gozo que estruturalmente é impossível, requer uma marca que garanta por conta própria sua impossibilidade.
Quando a criança não tem certeza de que possa ser objeto causa de desejo para o Outro, haverá angústia.
No grafo do desejo, Lacan mostra que a constituição da imagem narcísica depende de que o Outro dê sua castração, e o piso, que neste grafo está situada a imagem narcísica, é também o lugar onde se enoda a inibição. Então o sujeito implicado na inibição é aquele em que a descoberta do vazio do lado do Outro não é segura, de modo que, ao invés de duvidar frente ao que o Outro quer de mim, como ocorre na angústia, ele tem certeza de que necessita dar ao Outro algo que aplaque sua falta. Com o receio de que o Outro queira todo o corpo do sujeito, este se defende desse gozo opressor oferecendo sua própria patologia.
Tratando-se de crianças, é deveras triste presenciar a inibição, seja em que roupagem esta se apresente; confesso inclusive que já fiquei em dúvida se havia cometido um ato de loucura, ao invés de um ato analítico, quando presenciei uma jovem criança não conseguindo sustentar seu aborrecimento com sua mãe, em um momento em que não foi o filho exemplar, se esmerar em desenhar flores para dar à mãe com receio de perder o seu amor. Diante dessa cena eu disse em voz alta e firme que a proibia de entregar seus desenhos para sua mãe.
Questionar os diagnósticos que rotulam as crianças é papel do analista, bem como estar atento para aspectos sutis da constituição de uma subjetividade que traz semelhanças com outros quadros, como é o caso da inibição e dos transtornos do espectro autístico. Poder apontar tais nuances à escola e familiares, pode impedir que uma criança na condição de inibida seja medicada.
É preciso também dar aos pais suas responsabilidades quando instrumentalizam seus filhos, é comum nos depararmos em quadros de inibição, principalmente as graves, com maridos que se deixam acomodar no lugar de cumpridores das exigências de suas esposas, maridos que abrem mão de seu desejo sexual porque temem se afastar de casa e as esposas abocanharem mais ainda seus filhos… tragédia do desejo.
Se por um lado, a inibição aponta para a detenção de um movimento e os pobres sujeitos nessa condição de inibidos acreditam somente na retenção como defesa, por outro lado, nós, analistas temos muito o que movimentar.
Curiosamente recordo-me, nesse momento, de um poema de Cecília Meireles em que se chama “ a arte de ser feliz”. Parece estranho uma possível receita de felicidade quando se fala do trabalho do analista, mas como a referida autora não é ingênua, vale a pena ouví-lo:
“ Houve um tempo em que minha janela se abria
Sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde e , em silêncio ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma regra: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava feliz.
As vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lopes de Veja.
Às vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
Que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.”

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Desenho e o contorno de seu furo

 

Acredito que todos aqui conheçam o famoso exemplo  do jogo do carretel  dado por Freud ao observar certa vez, um de seus netos lançando um carretel para fora do berço e depois puxando-o de volta no momento em que lidava com a ausência de sua mãe. O pequeno garoto, ao repetir seus movimentos, emitia  vocalizações bem próximas à Fort e Da ,palavras que, em alemão significam algo como” foi-se e aqui ”.

Freud serviu-se dessa observação  para destacar que  a criança  obtura o efeito da desaparição de sua mãe podendo ser  agente do mesmo.  Mas talvez o mais importante esteja no fato de que, nessa brincadeira em que se colocou em ato a separação, vê-se a ação do significante, constituindo-se como resto, identificado ao carretel que se destaca do pequeno sujeito, indicando que  devemos olhar para o conjunto dessa atividade como simbolizando a repetição que só  pode ser definida na sua relação ao objeto.

Cada experiência na constituição de um sujeito é diferente da anterior, instaura-se uma distância  na qual virão alojar-se os objetos pulsionais e será pela repetição das experiências que a criança tenta anular essa distância. Mas se trata de um grande engano, pois quanto mais ela repete para tentar encontrar o idêntico, mais ela cava uma diferença, nenhuma experiência é igual a outra e nenhuma pode reencontrar a primeira experiência,  nomeada como  a Coisa, em alemão, Das Ding.

Assim, se a repetição sempre gera novos vestígios de experiências e não a imediata adequação como semelhante, ela sempre resulta parcialmente em falha e por isso mesmo ela é sempre nova: cada repetição  acrescenta uma marca à série de precedentes. Mas entre as repetições falhadas, subsiste um resto que permite ao desejo relançar-se.

Podemos dizer que a repetição fabrica restos, isto é, o que é produzido pelo fracasso da reprodução do mesmo. Esse resto assume o status de objeto a, causa do desejo. O objeto a, visado no outro, se encontra retrospectivamente gerado por experiências de repetições, sendo que estas se produzem em uma relação de vestígios a vestígios, que fracassa em significar exatamente o real. Essa série de repetições é que dá lugar aos objetos e não à ideia de que um objeto já estaria constituído  e portanto, provocaria repetições para ser reencontrado.

Quando a criança brinca, uma série de equivalências ocorrem, em um sistema em que os objetos se substituem uns aos outros, pondo dessa forma, seu mundo em movimento. Sendo assim, repetição não é cópia de um modelo e sim, um  encontro. Sylvie Le Polichet fala da repetição de um modo que considero poético e por isso, o escolhi : “ a repetição é sempre nova, pois ela se produz em um novo lugar, ou melhor, ela produz um novo lugar, criado pelo encontro de duas temporalidades diferentes e pela atualização dos efeitos desse encontro. Cada um desses encontros gera uma singularidade, pois não só cada “ agora” é determinado pelo confronto com o precedente e com o seguinte, como também as diversas combinações de fragmentos podem se encontrar investidos de maneira privilegiada nesse momento.”

Já Denise Lachaud nos lembra que o traço da situação primeira da operação de linguagem terá por referente alguma coisa  de perdido: o objeto a, objeto causa do desejo. No caso do neto de Freud, o objeto a presentificou a perda enquanto perda, mas também enquanto ausência. Se ela vem a repetir-se é porque este traço reenvia a alguma coisa perdida quando da sua inscrição, pelo próprio fato de inscrevê-la, de repetí-la  portanto. O que se repete é o que separa a ausência da presença, o Fort e o Da, o aqui e o que vai embora, isto é, o corte.

Para entrar ao universo do simbólico, que como vemos, remete à morte da Coisa( processo que a criança atravessa para sair da sua falta em ser e entrar no universo simbólico), o sujeito fica privado de algo dele mesmo que toma valor de significante de sua alienação. Ao alienar-se na linguagem, a criança se apóia em um universo simbólico, se identifica ao desejo do outro ao mesmo tempo que desconhece essa determinação na formulação de suas demandas. Neste ato, institui-se a relação sempre repetida entre sujeito e o  objeto perdido onde seu desejo se aliena .Assim, o sujeito que sofreu a operação do significante está identificado ao que apaga a Coisa, está identificado ao traço do apagamento, o Um descrito por Freud, traço unário, enquanto que excluído.

Podemos  dizer que esse primeiro suposto traço unário é o conceito da falta, necessária para se instituir o desejo, marcando a ausência da Coisa, designando o lugar do objeto caído e se repetindo na sua relação ao objeto , entre o que ele instalou de um ideal e sua busca.

Freud inicialmente usa em sua obra a expressão “ traços mnêmicos” , depois  traço unário e mais adiante, representação de coisa, mas não por se tratar da representação das coisas e sim, para assinalar essa representação de traço como sendo o encontro entre o futuro sujeito com sua falta em ser, entregando a representação real do corpo em troca dessa falta. Há uma operação de separação da carne do corpo, a carne como real do corpo e faz entrar o traço unário como simbólico do corpo. Ao real desse momento, nomeia-se castração primária.

A Coisa, Das Ding é o que se instala no sujeito através do esburacamento que é a entrada do simbólico fazendo furo no real, um furo sem fundo e essa circulação vai formando o corpo. Esse tempo é o da inscrição do simbólico no real do corpo.

Séculos mais tarde, me vejo como Freud, participando ativamente de uma brincadeira originada no encontro com o neto de 3 anos de uma pessoa próxima.  Um certo dia, chegando em sua casa, ele olha para mim e me convoca: “ vamos brincar?” Eu  aceito o convite e ele me questiona: “ mas cadê o seu brinquedo?” Eu digo que acabo de chegar de viagem e que vim despreparada, mas gostaria de conhecer os brinquedos dele.

Para minha surpresa e também alívio, ao invés dele vir com brinquedos eletrônicos ou algo do tipo, ele pega um livrinho infantil com atividades e desenhos e um lápis e começamos a  brincar de desenhar. Mas foi em uma das páginas que ele encontrou  um jogo de caça palavras e me disse que já sabia qual era a letra do seu nome. Quando eu peço para que ele me mostre, ele usa o lápis para fazer uma marca sobre a mesma. Porém, como o papel estava apoiado em uma superfície macia, um tapete, ele acaba fazendo um furo e fica maravilhado com essa possibilidade. Começa a furar todas as outras letras do livrinho, depois os desenhos e constrói uma história: ele  fura o mar desenhado no papel e diz que a água iria vazar, os peixes caírem.

O sujeito é assim, fruto de uma relação, de um laço que o engaja com seus pais, com sua família, com seu meio social. E antes mesmo dele poder se reconhecer pelo simbólico num lugar social, essa aventura tem seu início na subordinação à imagem, primeiramente  a do outro no espelho e, depois, como reflexo desse outro, à do Eu.

O Eu é o que surge ao sujeito a partir da experiência especular, imagem de si capaz de produzir nele a ilusão da integração da sua realidade corporal. Mas essa ilusão é também aposta subjetiva oferecida ao sujeito, pois ela integra, uma vez que oferece à criança a possibilidade de se ver através do espelho, no corpo do adulto, podendo se ver num corpo integrado e não mais fragmentado.

É a propósito dessa relação do objeto à sua imagem no espelho que Lacan funda a relação imaginária constitutiva do Eu. O homem se olha no espelho e se reconhece no reflexo que ele percebe.

O narcisismo primário, iniciado pelo estádio do espelho, precedido pela experiência do desamparo e pelo encontro com o outro, instaura tanto a imagem, como a função do Eu, fundamentais para a posterior estruturação edípica. Nesse momento a criança pode assumir uma imagem, gesto que a cada vez produz uma nova identificação, uma imagem é uma projeção de sua superfície corporal e é por esse movimento, pelo qual a criança se assume através da imagem de si que recebe do outro, que ela pode realizar-se como si mesma.

Isso modifica profundamente sua relação com a formação da imagem em geral e coordena as relações do eu com os seus semelhantes.

Assumir uma imagem de si é um ato psíquico importante e formativo, pois é a partir da unidade imagética que a criança infere a unidade de si .

Mas quando uma criança se olha no espelho, ela não pode ver como seu corpo foi marcado pelos cuidados de quem se ocupou dela, as zonas que ficaram investidas eroticamente, uma vez que ao cuidar de uma criança, se está erotizando seu corpo, ajudando-a a construir um corpo pulsional e não meramente biológico e funcional.

Da produção entre o que é visto no espelho e do que não pode ser visto causará uma assimetria entre o sujeito e sua própria realidade, que não poderia coincidir em todos os pontos com o Outro. Eis o furo, o que é produzido por essa não coincidência, para que o sujeito possa escapar de uma subordinação completa à imagem de si. O furo em psicanálise tem um papel importante pelo movimento que produz : ele não é para ser tamponado. Esse vazio será aquilo mesmo que sustentará o laço com o outro.

Mas na vida do sujeito, esse espaço vazio não resta como puro vazio. Ele já é, pela própria ação defensiva do aparelho psíquico, ornamentado pela fantasia. Pela via da fantasia, o sujeito cria para si um simulacro da posse do objeto supostamente perdido, que teria havido no lugar do furo. A fantasia tem a propriedade de construir a imagem privilegiada com a qual o sujeito apoia sua experiência de satisfação. É pela via da construção dos ideais que o sujeito mantém sua relação com o que falta, o sujeito tenta responder ao que supõe ser o pedido que o Outro lhe endereça.

No ensino de Lacan, ele se interroga sobre o que pode ser o Eu e para explicá-lo, recorre à ajuda da topologia. Ele recorre à um objeto da topologia conhecido como toro, no qual a noção de interior está comprometida com o espaço que funda nosso corpo. Clara Cruglak esclarece que essa topologia, poderíamos chamar de a topologia do Eu.

Para facilitar nossa compreensão, um pneu de borracha é o objeto que mais  se assemelha ao toro da topologia. Portanto, esse objeto possui um furo e é da função do furo que serve para apresentar aquilo que na estrutura do sujeito é da ordem do irredutível: o vazio que o constitui. Assim, nas palavras de Clara Cruglak – nem defeito, nem falha e sim, falta. Furo estrutural e estruturante.

Lacan define o toro como uma organização do furo por ser uma superfície sem margem que delimita um interior e um exterior com a especificidade de possuir um centro dito “ exterior” e é este centro furado que permite a nodulação entre real, simbólico e imaginário.

No toro, falando de um modo bem simples, existem dois trajetos: um que descreve o desejo e outro, a demanda. Ou melhor, através da topologia do toro, podemos ver ilustrada a demanda e sua repetição fundamental que se realiza no desconhecimento daquilo que ela exprime, um desejo desconhecido, mas essencial. A demanda, no que se repete, desenha o objeto como faltoso, indicando que ele é sempre fracassado, mas trata-se de um fracasso estrutural, pois está ligado ao percurso da demanda e à sua repetição. Dessa maneira, não só o fracasso é fundamental à demanda, como a figura do objeto a se perfila no vazio central.

Integrando a topologia à clínica, enquanto uma mãe demanda objetos ao outro, ela acaba produzindo uma tentativa de acreditar que possa existir um objeto para a sua demanda e como não há, ela irá produzir uma resposta do tipo: “ não é isso” e mais uma vez a criança tentará responder à sua demanda e se deparará  com outro” não é isso”, ou seja,  essa resposta, pela sua repetição, faz com que a pulsão seja relançada permanentemente e o objeto estará sempre escapando.

Mas vale lembrar que quando falamos do vazio constitutivo do sujeito, apoiado na figura do toro, falamos também da importância do Nome do Pai, que surge como função a partir da primeira privação na origem. A função do Nome do Pai pode ser realizada por qualquer um que possa assumir a lei, proibindo o incesto ao fazer de uma mulher a causa de seu desejo. Será então, enquanto significante capaz de dar um sentido ao desejo da mãe que se pode situar a função do Nome do Pai e para que esse processo opere, é preciso saber o seu valor posicional, isto é, que o investimento fálico esteja posto no lugar forjado pela incorporação dos atributos não porque exista alguém que os possua, mas porque alguém pode detê-los.

Se a mãe não está submetida à instância que priva do gozo incestuoso e impede que faça do filho um objeto, o filho se encontrará capturado como objeto de gozo da mãe sem poder chegar ao lugar simbólico da função fálica.

Sílvia Amigo afirma que a  marca da perda do objeto passada para a imagem é tão importante na constituição de um sujeito, pois será nela que encontraremos o crivo para verificar se ela poderá servir de cobertura de um objeto real . O objeto é tido como perdido quando se adiciona à expulsão de gozo que a incorporação da linguagem contém e à  contagem de gozo que é a inscrição de traço unário, a perda do narcisismo. Somente neste momento o objeto se constitui como objeto perdido por conta do sujeito.

Em outras palavras, a Coisa é uma falta que passa de uma geração à outra e funda o objeto a, ela é o furo em torno do qual tudo se organiza. O objeto a é fundamental, pois o que causa o desejo é a falta e para uma  mãe  poder desejar, precisa haver falta nela, mas não é a falta de um objeto em si. O lugar do objeto a deverá ficar vazio, assim tudo o que se propor a ocupar esse lugar não servirá, nada será causa do desejo. Desejar é poder assumir que existe falta.

Questão importante, uma vez que o modo como cada sujeito desenha o contorno de seu furo é o que o faz único no plano imaginário. E os objetos que o Outro oferece  ao falasser fazem com que se acomodem os furos do corpo. Por essa razão, quando não se olha uma criança nos olhos, quando não se oferece à ela um olhar como objeto, o furo do oco palpebral não se acomoda para receber o olhar. E assim ocorre com o ouvido, a boca  e o ânus.

Quando a criança ingressa no campo do Outro, ela está ingressando no campo pulsional da linguagem e a pulsão é que vai organizar seus trajetos ao redor dos furos do corpo e também fará com que o corpo seja percebido como fragmentado, a fatia da boca, a fatia dos olhos e assim por diante. E será posteriormente, no estádio do espelho que a criança terá a possibilidade de ter a unidade corporal ao preço da alienação ao Outro, mas também constituindo o eu ideal.

O Eu Ideal é a miragem da impossível adequação da demanda materna e o objeto que a essa demanda seja proposto.

Mas existe um modo pelo qual a criança se faz muito precocemente objeto do desejo do  Outro e  é aqui que  se introduz a questão do fantasma, pois se como vimos na figura do toro, este possui um buraco central e é neste buraco que que está o objeto que sempre escapa, porque só há objeto se houver demanda. O fantasma é o projeto de realizar o Eu Ideal, ou seja, o projeto de se constituir como objeto adequado à demanda materna. Podemos nos expressar assim: è ao desejo do Outro que eu me proponho como objeto e esse desejo do Outro evidentemente se articula numa demanda.

O desejo encontra-se uma relação  na qual se articulam a imagem e o fantasma, no qual o objeto a enquanto causa sustenta essa operação.

Para o neurótico, o desejo é algo que escapa o tempo todo, então, o fantasma de cada um acaba sendo este obstáculo diante do enigma do desejo humano, mas também uma proteção. Na análise, o fantasma  vai mascarar o real do desejo. Desta forma, vemos na clínica sujeitos que se fazem de boca, fezes, olhar ou voz  de um gozo que o envolveu e ele não se destacou.

O sujeito não percebe um gozo do qual ele se fez objeto e esse objeto faz buraco, furo em todas as enunciações e inclinações do sujeito. A partir daí, se delineia toda uma sintomatologia que logo nas primeiras entrevistas podemos ver.

Quando alguém está apoiado em um eu especular e não pôde ainda passar para um eu não especular, viverá como afronta qualquer besteira que o ameace, será alguém frágil em seu narcisismo.    A psicanálise sabe o quanto é caro para que um sujeito possa escapar de uma subordinação completa de sua imagem em si.  Há muitos casos clínicos que sem serem psicoses, implicam a gravidade do fracasso da constituição da fantasia.

Quanto ao menino de três anos  que conheci, ele descobriu que usando um pouco mais de força, pode fazer um furo maior no papel e realiza o ato criativo de brincar de ver por este furo. Ele soube  que é pelas aberturas, que uma troca entre o exterior e o interior do corpo pode se estabelecer. Nos comunicamos.

Graziela Rebouças

Maio de 2015

 

Referências Bibliográficas

Amigo, S. Clínica dos fracassos da fantasia. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007.

Cruglack, C. Clínica da Identificação.

Dicionário de Psicanálise: Freud e Lacan, vol.1. Salvador: Ágalma, 1997.

Granon-Lafont, J. A topologia de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1988.

Le Polichet, S. O tempo na psicanálise.

Násio, J.D. Meu corpo e suas imagens. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2009.

Tyszler, J.J. O fantasma na clínica psicanalítica. Recife: Ed. Do Tradutor, 2014.

 

Por quê é preciso discutir a relação sexual?

Graziela Bolelli Rebouças

Recentemente participei de uma cena um tanto bizarra, mas muito presente nos dias atuais: estava eu em uma loja, quando encontro uma pessoa conhecida e se estabelece uma conversa bem familiar à nós, mulheres, em que começamos a falar sobre nossas ocupações, filhos, maridos e em pouco tempo conseguimos abrir milhares de parênteses que deixa qualquer homem atordoado…e como isso é gostoso…
Mas foi então nesse contexto, que eu pergunto à minha conhecida, como vai seu filho, um rapaz de 16 anos, que eu me lembrava de um modo carinhoso, de como este rapaz, quando o conheci ainda criança, era bonito, inteligente e determinado nos esportes. Ela me responde que ele está bem, embora tivesse abandonado os estudos pois havia se tornado um grande namorador à ponto de só pensar em garotas e não conseguir mais estudar.
Confesso que fiquei bem surpresa com a notícia, no meu imaginário, aquele rapaz, estaria tendo muito sucesso nos estudos e nos esportes. Então, enquanto eu lidava com a notícia, tentando simbolizá-la, chega uma outra conhecida, que havia escutado a conversa e acrescenta que ainda bem que o rapaz estava namorando garotas, pois poderia ser pior, no caso, se ele se interessasse por homens.
E por fim, me atualiza, dizendo que hoje em dia é assim: “ a pergunta tão corriqueira sobre o sexo do bebê , se a mãe está esperando um menino ou uma menina, agora só pode ser respondida do seguinte modo: que não sabem, que quando o filho ou a filha estiverem mais velhos é que eles, os pais poderão responder.”
Como a conversa era ocasional, nos despedimos naquele momento, peguei meu embrulho e fui embora me perguntando se o espanto e mal estar que haviam se instalado em mim seriam frutos de um preconceito, de uma norma que todos devem estudar e fazer faculdade. Mas identifiquei que meu mal estar estava sobretudo no fato de uma conversa tão séria ter se desenrolado de modo tão descompromissado. Pensava se uma das mulheres havia parado para refletir o que dizia sobre a escolha sexual dos filhos ou se apenas repetia comentários da moda, fazendo um chiste.
Deixo claro que não se trata de uma defesa da heterossexualidade e sim, de poder refletir sobre as mudanças no laço social, muito claras na fala de uma das mulheres da cena, que com o advérbio de tempo “ agora”, a sinaliza.
Somente o percurso analítico permite que um sujeito se aproprie de sua linguagem, que se deixe atravessar pelo o que fala, que tome um engano, um lapso como algo que foi revelado do seu inconsciente e que o sujeito não sabia que possuía um saber sobre o ocorrido.
A psicanálise é fundada no impossível da relação sexual e no inconsciente estruturado como uma linguagem. Vale lembrar que linguagem não é simplesmente comunicação – é necessário ser um sujeito para fazer uso da linguagem, ou seja, assujeitar-se ao significante.
Sendo assim, não basta aprender a articular palavras, ter um bom vocabulário, escrever carta comercial, responder whatsapp… é preciso ser capaz de desejar. Se para haver desejo é preciso haver falta, como podemos esperar sujeitos desejosos nos dias de hoje, em que o discurso da mídia está na contramão desse processo, não cessando de nos apresentar objetos de consumo e todos acrescidos da oferta de um retorno imediato à nossa satisfação?
Não poder esperar, não poder estar em falta é um sinal de que as questões referentes à castração não caminham bem. Lacan discute essa problemática no impossível da relação sexual, no inconsciente estruturado como uma linguagem. Somos obrigados a falar porque é impossível criar uma unidade com o outro, assim como é impossível viver para sempre ou pertencer simultaneamente aos dois sexos.
Na clínica psicanalítica, encontramos sujeitos que sabem desses impossíveis, mas o tratam de uma forma racionalizada, muito evidente na maneira como usamos da palavra. É comum ouvirmos a frase: “ eu sei que não posso fazer tudo, mas…” ou então, “ eu sei que meu companheiro é diferente de mim, mas…”
Penso também no aumento das leis em nossa sociedade, normatizando condutas e visando um ideal de felicidade como é o caso da proibição do uso de armas de brinquedo por crianças, da proibição dos pais darem umas palmadas no filhos entre outras. Estas leis proliferam por falta de uma lei simbólica que leve o sujeito a reconhecer o impossível e a agir de acordo com seu desejo, pagando o preço pelo mesmo.
Existem as questões privadas e íntimas que instância alguma pode dizer o que fazer, como por exemplo, a escolha sexual.
A clínica psicanalítica oferece uma escuta às demandas de um sujeito até que se escute seu desejo, sua verdade não –toda, já que impossível de ser toda dita, ao passo que essas leis parecem acreditar que não há impossível a ser superado e a ciência corrobora com este cenário nos dando respostas à todos os males.
Mas numa sociedade com tantas leis e num mundo com tantas promessas, por que os pais não se implicam nos sintomas apresentados por seus filhos e se sentem aliviados quando um filho escolhe algo que agrade seus narcisismos?
Sabemos que não basta que uma mãe ofereça ao filho a linguagem, isto é, o significante, o elemento simbólico, pois como o bebê ainda não tem o seu sistema imaginário formado, ele não é capaz de utilizar este simbólico ao seu próprio modo. Então é preciso que entre os 6 e os 18 meses, a criança passe pelo estágio do espelho, quando irá reconhecer como separada do corpo do Outro, deixando um estágio anterior em que vivenciava seu corpo como despedaçado.
Este estágio do espelho, que é o da formação do imaginário, tem no momento em que a mãe diz à criança: “ olha você ali!”, uma confirmação simbólica dada pelo Outro, que aponta pela linguagem a imagem do corpo próprio.
Porém, antes de se deparar com um espelho de parede, o primeiro lugar em que a criança se reflete e se reconhece é o olhar do Outro; portanto, fora de si mesma.
O espelho é o lugar decisivo na formação do eu, mas o eu, em relação ao sujeito do inconsciente é um outro: por ter sido gerado a partir da imagem do Outro, essa imagem especular que irá mostrá-lo ali, onde ele não está.
A criança forma o seu sistema imaginário através do espelho e entra num jogo imaginário com a mãe, percebendo quando ela está presente ou ausente. Esta falta da mãe é estruturante, ou melhor, a mãe falta como ausência e assim a criança percebe que a mãe não tem tudo, algo lhe falta – eis o que chamamos de falo imaginário e a criança se oferece como esse objeto para suprir essa falta. É então que a função paterna intervém como elemento real, introduzindo a lei que abre a possibilidade da criança buscar novos horizontes para além da mãe e se direcionar aos seus próprios interesses a partir do que lhe falta.
No que diz respeito às identificações e à escolha de objeto na determinação do próprio sexo e no do outro, superar a indiferenciação , assumir a divisão sexuada e suportar a diferença é um caminho árduo. Embora a biologia acredite poder determinar a sexualidade humana, esta lhe desafia e Lacan contribui ao abordar a diferença sexual não apenas pela anatomia dos corpos e sim, pelos discursos dos sujeitos; nos apresentando uma posição do masculino e uma posição do feminino.
A diferença entre tais posições está na relação com o falo e precisamos levar em conta de que não estamos mais no campo da sexualidade e adentramos no campo da sexuação, que se refere à subjetivação do falo, possibilitando dois modos de se lidar com a castração- ter ou não ter o falo e ter ou ser o falo.
Tê-lo ou não, aponta para uma simetria , já que ninguém realmente o tem, mas tê-lo ou sê-lo é outra história… a problemática da identidade sexual depende da relação que se tem com a atribuição fálica, mas será a elaboração psíquica que cada um fará em torno dessa questão que merece toda a importância. Essa elaboração parte de um real anatômico, real do corpo que impõe alguns limites à relação do falo com o mundo.
As questões que concernem aos nossos corpos são bem complexas e no modo como o sujeito de hoje se relaciona com a castração, aponta para a predominância do imaginário, supervalorização do corpo, exigências de gozo, consumo desproporcional à renda, drogadição, erotização precoce, uso indiscriminado de medicamentos, entre outras. Quanto menos simbolização, menos sintomas, mais atuações e uma indiferenciação sexual.
O laço social na economia do mercado habitua a conceber qualquer gozo como comprável, o gozo que a sociedade contemporânea concebe não é um gozo limitado por um interdito e sim, um gozo sem limite, de um objeto sempre disponível.
Tendemos a reduzir o desejo à procura de um gozo que não é o gozo fálico, possível de ser atingido e sim, um gozo que nos parasita e nos paralisa. O gozo fálico é o mais comum de ser encontrado por fazer parte da maioria das nossas atividades: trabalho, sexo, gozo do sintoma, do sofrimento.
Lacan vai definir o gozo sexual como fálico, abrangendo com essa definição tanto a sexualidade masculina como a feminina. A própria denominação “ fálico” já indica que ele pertença ao campo do simbólico, é um gozo articulado e comandado pelo significante fálico, faz parte da linguagem e pode ser dito.
Mas o fato de que o gozo fálico é um gozo do significante, traz a consequência de que o significante é também o que faz barreira ao gozo. Explico: o gozo fálico é um gozo limitado, sendo seus limites determinados pelo falo. A linguagem não nos aproxima dos objetos, como temos a ilusão e sim, nos afasta dele. Uma vez que quando falamos, um significante remete sempre à outro significante, o objeto fica de fora dessa cadeia, escapa à mesma. Então o gozo fálico será sempre um gozo do significante e não do objeto. O sujeito gozará portanto de um semblante, restando a sensação frequente de não conseguir abarcar o objeto que seria o “bom”, aquele que viria garantir o gozo total.
Como não existe gozo total, que permite gozar da totalidade do Outro sexo no ato sexual, caberá ao sujeito gozar do órgão.
A função do falo pode ser também abordada pelo o que Lacan chamou de bipolaridade sexual, ou seja, ser homem e ter o falo e ser mulher e não tê-lo. Mas é o significante que confere ao objeto fálico a função de ser o que falta à mãe e, sobretudo, de ser o que ela deseja. Eis o que leva uma criança, seja ela menino ou menina, a desejar ser o falo que viria preencher o desejo deste Outro faltante. O falo não é um objeto, não é o órgão que ele simboliza, não é uma fantasia e deve ser compreendido pelo efeito imaginário que ele produz.
Um pouco mais tarde, um sujeito poderá caminhar no seu percurso de crescimento e ser o falo para o Outro, não será mais o cerne de sua atenção. O sujeito passará a se atentar ao apresentar ao Outro o que ele pode ter de real que responda a este falo. As relações entre os sexos girarão em torno de ser e ter um falo e não em torno de ser homem ou de ser mulher.
Então, antes mesmo de falarmos em uma inadequação entre um homem e uma mulher, precisamos ter claro que a primeira inadequação ocorre entre a demanda materna e o objeto que a essa demanda poderia ser proposto. O primeiro objeto que todos nós propomos como adequado à demanda materna é sempre nosso corpo e essa experiência ficará no horizonte como a nossa perspectiva de gozo. Passamos a perseguir a ideia de gozo de poder ser o objeto adequado à demanda materna, de poder realizar nosso Eu Ideal.
As inúmeras ofertas de produtos nos dias atuais nos impõe um padrão comum de gozo : todos devemos ter os mesmos objetos para sermos felizes, completos, abolindo as diferenças, anulando a reflexão acerca das consequências da sua difusão na sociedade e o mesmo acontece com o sexo, que virou uma mercadoria a ser consumida. O aforismo “ a relação sexual não existe” está fundado na diferença e quando se trata do sexo fora da diferença, isto é, o sexo ao alcance de todos, como vídeos que ensinam as mulheres a se masturbarem, trazendo uma obrigatoriedade em relação ao gozo; cria um imperativo de gozo que se um sujeito não responde ao mesmo, está em dívida em relação à tal imperativo. O que é de domínio privado passa a ser de domínio público.
O objeto a, nesse caso, se apresenta como positivado, materializado. Ao invés de se tratar de um substituto do objeto mediado pelo significante, o objeto passa a ser algo que compramos. De acordo com Marcus do Rio Teixeira, o tipo de gozo encontrado com tal objeto não seria mais um gozo fálico e sim, um gozo de consumo.
Segundo este autor, passamos de uma situação na qual o objeto de consumo era um instrumento, um atributo fálico que permitia o acesso ao objeto que permitiria o gozo sexual, fálico, à uma situação na qual o objeto não é mais um meio, e sim o propiciador do gozo. Não se trata mais de um gozo do significante, mas um gozo do objeto.
Como consequência da perda da referência fálica, para Charles Melman tem-se a prevalência dos gozos auto-eróticos, que não apelam a um parceiro e sem o direcionamento do falo, as pulsões produzem gozos que se localizam no corpo, mas não tem como referência o sexual.
Se o falo falta, Lacan, propõe o conceito de objeto a, causa do desejo, que por sua vez, marca a entrada do significante no real – causa de sujeito. E é esta via que permite deslocar a questão do sexo do imaginário do corpo para a posição discursiva, por que esta sim, garante a diferença.
Nas letras de Lacan: “ O Outro sexo, a que nos remete a falta no campo do Outro, marca justamente aquilo que se transmite de uma geração a outra. Pois só se transmite o significante.”
Lacan insiste na importância do enlaçamento do real, simbólico e imaginário, três registros necessários, em sua articulação e não, sozinhos, para que algo do funcionamento conhecido como humano se dê. Assim, o sujeito, curvado sobre si mesmo, carente de seu sonho, de sua fantasia será aquele que gozará não do objeto, mas fazendo-se de objeto. O sujeito nessa posição não percebe o gozo do qual ele se faz objeto.
Concluo agora, o quanto que fiquei perturbada com a cena que me fiz ouvido na loja, me colocando angustiada por fazer parte do laço social em que também construo. Mas se a clínica analítica nos ensina o valor de uma perturbação e nos apresenta a angústia como um sinal para ficarmos atentos à presença maciça do Outro, que bom ter sobrado um resto desse episódio.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Dicionário de Psicanálise : Freud & Lacan, 2, 2ª edição. Salvador: Ágalma, 2004
Duque – Estrada, Dulce. O umbigo do sonho…e o nosso. Porto Alegre; CMC, 2011
Fleig ,Mario. O desejo perverso. Porto Alegre: CMC, 2008
Harari, Roberto. Por que não há relação sexual? Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2006
Teixeira, Marcus do Rio. Vestígios do gozo. 1ª edição. Salvador: Ágalma: Associação Científica Campo Psicanalítico, 2014